A greve na universidade tem sido discutida e esclarecida ao público, mais como uma série de reivindicações salariais — assunto absolutamente indiscutível — e apenas tangencialmente como um gravíssimo problema de ordem estrutural, isto é, um modelo universitário, que foi copiado, e assim mesmo mal, dos programas acadêmicos das universidades norte-americanas. Devemos estar lembrados do envio de professores e administradores aos Estados Unidos por parte do MEC a aquele país, de modo que fragmentássemos — o que finalmente aconteceu — as nossas instituições acadêmicas, fazendo desaparecer, como por um ato de bruxaria, as nossas tradicionais faculdades, as quais, apesar das deficiências normais de uma vivência universitária ainda incipiente, funcionavam melhor do que hoje, através de departamentos que, na realidade, são simples seções de uma ineficaz engrenagem burocrática. A universidade brasileira se transformou numa edematosa fábrica de diplomas. Hoje, pasmem!, querem transformá-la numa empresa privada, com características nitidamente capitalistas em regiões como o Nordeste e Norte do país, as quais ainda não alcançaram um estágio capitalista, pois permanecem mergulhadas num feudalismo medieval. Me respondam os economistas: pode-se falar em industrialização desta tão esquecida parte do país? Se nem ao menos sabemos encontrar uma solução para a questão da seca? E o cinismo chega ao ponto de sugerir que a saída é aprendermos a conviver com ela, a estiagem! Quem vai ao Rio e São Paulo sabe perfeitamente de que maneira são tratados os nordestinos: analfabetos, famintos, incultos, numa palavra, párias. O Nordeste, sem nos referirmos ao Norte, onde a situação ainda é pior, é o quintal do Sudeste. E com dificuldade têm que admitir que foi daqui que surgiram os gênios da cultura brasileira — Zé Lins, José Américo, Santa Rosa, Pedro Américo, Gilberto Freyre, Câmara Cascudo, José de Alencar e tantos outros nomes ilustres que dignificam o Brasil e o torna respeitável aos olhos do mundo.
Nosso país é um dos que menos contribui financeiramente para a educação. As estatísticas do número de pessoas iletradas que não têm condições de frequentar as escolas são estarrecedoras. Num país onde a maior parte da população não tem acesso à educação, como podemos nos atrever a falar em privatização do ensino, como se este fosse uma mercadoria de luxo? Numa época de abertura democrática, encetada pelo presidente Figueiredo, se ocorresse este temível fenômeno do ensino pago, teríamos que admitir que teria havido um paradoxal retrocesso.
Pessoalmente sou um dos que acreditam na atitude sincera do Presidente. Lamentável, contudo, é constatarmos a má-fé de muitos dos que o cercam. O Ministério da Educação é provavelmente um dos mais complexos de todo o governo, pois é difícil encontrarmos no Brasil quem saiba dirigí-lo com eficácia. Não basta que seja um professor universitário ou um ilustre militar que tudo corra às mil maravilhas. Um ministro de planejamento pode achar ou considerar os custos da educação não prioritários ou sem grandes interesses para a economia do país. A preocupação com o FMI pode e está, sem dúvida, no âmago das grandes questões políticas e econômicas do governo. É previsto um aperto econômico-financeiro para o próximo ano. O prognóstico é sombrio para o povo, embora seja promissor para a economia nacional. Enquanto isso a educação se arrasta cada vez mais lentamente a passos de tartaruga. O brasileiro precisa, por conseguinte, se conformar em ser sempre um autodidata. A se esforçar magicamente para aprender, apesar da própria educação aí estabelecida.
Todavia, a marcha da história é implacável e os vigaristas da educação que se cuidem, porque a contrafação não pode durar muito tempo.
Não tardará o dia em que o aprimoramento educacional de nosso povo será entregue em mãos mais limpas e dignas.