Ao chegarmos a Belém, uma cidade acolhedora, fomos informados pela agência da Varig que nosso itinerário para Los Angeles fora alterado via Cidade do México e não direto para Miami. Pagamos uma ligeira diferença e voamos para Manaus a fim de pagarmos o avião internacional. Sem querer fazer turismo pois nossa única intenção era irmos para Pasadena e lá realizarmos os nossos estudos de pós-graduação, contingências alheias à nossa vontade levaram-nos à grande capital do México até a cidade de Tijuana, fronteira com sul dos Estados Unidos. Infelizmente nosso objetivo não foi alcançado graças à ineficácia do sistema burocrático brasileiro e ficamos apenas uma semana na bela cidade de San Diego, antigo palco de duelos dos “cowboys” americanos.
“O homem põe e Deus dispõe”, diz o ditado, e foi assim que permanecemos no México por algum tempo ao invés de ficarmos na Califórnia por dois anos, como tinha sido programado.
Ao desembarcarmos no aeroporto, depois de passarmos ligeiramente pela Colômbia, fomos à sessão de câmbio para iniciarmos a prática da mais nova moeda. A infinidade de pesadas moedas nos incomodavam e sem saber direito como usá-las, ofereci uma gorjeta a qual foi, incontinenti, recusada pelo carregador de bagagens. Fomos — eu e meu filho de vinte anos — a um restaurante do aeroporto e a caminho vimos a homenagem prestada a um brasileiro, Santos Dumont, o pai da aviação — para juntos cancelarmos o câmbio na base do dólar e conseguinte compra do pobre cruzeiro. Depois de todos os nossos esforços matemáticos, fomos “lubrificar” as secas goelas, eu com uns goles de “tequilla” e Archidy Filho com uma cerveja “al tiempo”. Mais tarde falando um pouco do espanhol, rumamos para o hotel em La Reforma. Lá, no quarto da Maria Cristina, assistimos uma partida de “base ball” pela TV sem que pudéssemos entender patavina. Começamos então a ter a estranha sensação de sermos estrangeiros, o que, a princípio, não nos pareceu agradável. Depois fomos nos acostumando, logo chamávamos um pouco de atenção com o uso do nosso idioma pátrio. Íamos constantemente à embaixada brasileira, onde tremulava o símbolo de nossa nação. Sentíamo-nos em casa. Tratavam-nos de maneira extraordinariamente carinhosa. Pediam-nos para irmos lá tantas vezes quanto desejássemos. O afável porteiro mexicano sempre nos recebia com um agradável sorriso. Víamos jovens de ambos os sexos, estudantes, em busca de informações acerca do Brasil. Do outro lado da avenida, há um pequeno restaurante especializado em comida brasileira, muito frequente pelos funcionários da embaixada. Parecia que estávamos no Bar do Pessista em Cruz das Armas. Até a garçonete falava um pouco de português e nos oferecia “Rabada à Brasileira”. Só não havia “a branquinha”, mas a “tequilla” quebrava o galho. Uma coisa, entretanto, não suportávamos: nem o cheiro, era as famosas “tortillas”. No bar de Dona Juanita, felizmente, não havia isto.
Todavia, minha peregrinação tinha de continuar, como expliquei antes. Suspendi minha viagem de avião até Los Angeles e fui atravessando todo o norte do México, passando por lugares que me recordavam vagamente o sertão nordestino, e preocupado em chegar ao meu destino, não gravei todos aqueles nomes das cidades até Tijuana. Lembro-me que nas tavernas de beira-de-estrada, o típico mexicano ameríndio nos olhava com bons olhos e nos chamavam de “gringos” talvez nos confundindo com norte-americanos.
Em San Diego, conheci Jim e Al, duas boas criaturas: o primeiro ex-piloto da Guerra do Vietnam, a qual ele mesmo detestara, e o segundo, próspero homem de negócios, que nos convidou a voltar a San Diego. Após um pequeno incidente, pois eu e meu filho nos separamos por três dias — ao urgente pedido do MEC, regressamos ao calor revigorador do velho nordeste, região quase esquecida do resto do mundo.