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Passagem Para O Mexico

Archidy Picado
João Pessoa · 8 July 1982

Transcription (Portuguese)

Ao chegarmos a Belém, uma cidade acolhedora, fomos informados pela agência da Varig que nosso itinerário para Los Angeles fora alterado via Cidade do México e não direto para Miami. Pagamos uma ligeira diferença e voamos para Manaus a fim de pagarmos o avião internacional. Sem querer fazer turismo pois nossa única intenção era irmos para Pasadena e lá realizarmos os nossos estudos de pós-graduação, contingências alheias à nossa vontade levaram-nos à grande capital do México até a cidade de Tijuana, fronteira com sul dos Estados Unidos. Infelizmente nosso objetivo não foi alcançado graças à ineficácia do sistema burocrático brasileiro e ficamos apenas uma semana na bela cidade de San Diego, antigo palco de duelos dos “cowboys” americanos.

“O homem põe e Deus dispõe”, diz o ditado, e foi assim que permanecemos no México por algum tempo ao invés de ficarmos na Califórnia por dois anos, como tinha sido programado.

Ao desembarcarmos no aeroporto, depois de passarmos ligeiramente pela Colômbia, fomos à sessão de câmbio para iniciarmos a prática da mais nova moeda. A infinidade de pesadas moedas nos incomodavam e sem saber direito como usá-las, ofereci uma gorjeta a qual foi, incontinenti, recusada pelo carregador de bagagens. Fomos — eu e meu filho de vinte anos — a um restaurante do aeroporto e a caminho vimos a homenagem prestada a um brasileiro, Santos Dumont, o pai da aviação — para juntos cancelarmos o câmbio na base do dólar e conseguinte compra do pobre cruzeiro. Depois de todos os nossos esforços matemáticos, fomos “lubrificar” as secas goelas, eu com uns goles de “tequilla” e Archidy Filho com uma cerveja “al tiempo”. Mais tarde falando um pouco do espanhol, rumamos para o hotel em La Reforma. Lá, no quarto da Maria Cristina, assistimos uma partida de “base ball” pela TV sem que pudéssemos entender patavina. Começamos então a ter a estranha sensação de sermos estrangeiros, o que, a princípio, não nos pareceu agradável. Depois fomos nos acostumando, logo chamávamos um pouco de atenção com o uso do nosso idioma pátrio. Íamos constantemente à embaixada brasileira, onde tremulava o símbolo de nossa nação. Sentíamo-nos em casa. Tratavam-nos de maneira extraordinariamente carinhosa. Pediam-nos para irmos lá tantas vezes quanto desejássemos. O afável porteiro mexicano sempre nos recebia com um agradável sorriso. Víamos jovens de ambos os sexos, estudantes, em busca de informações acerca do Brasil. Do outro lado da avenida, há um pequeno restaurante especializado em comida brasileira, muito frequente pelos funcionários da embaixada. Parecia que estávamos no Bar do Pessista em Cruz das Armas. Até a garçonete falava um pouco de português e nos oferecia “Rabada à Brasileira”. Só não havia “a branquinha”, mas a “tequilla” quebrava o galho. Uma coisa, entretanto, não suportávamos: nem o cheiro, era as famosas “tortillas”. No bar de Dona Juanita, felizmente, não havia isto.

Todavia, minha peregrinação tinha de continuar, como expliquei antes. Suspendi minha viagem de avião até Los Angeles e fui atravessando todo o norte do México, passando por lugares que me recordavam vagamente o sertão nordestino, e preocupado em chegar ao meu destino, não gravei todos aqueles nomes das cidades até Tijuana. Lembro-me que nas tavernas de beira-de-estrada, o típico mexicano ameríndio nos olhava com bons olhos e nos chamavam de “gringos” talvez nos confundindo com norte-americanos.

Em San Diego, conheci Jim e Al, duas boas criaturas: o primeiro ex-piloto da Guerra do Vietnam, a qual ele mesmo detestara, e o segundo, próspero homem de negócios, que nos convidou a voltar a San Diego. Após um pequeno incidente, pois eu e meu filho nos separamos por três dias — ao urgente pedido do MEC, regressamos ao calor revigorador do velho nordeste, região quase esquecida do resto do mundo.

Translation (English)

Passage to Mexico

When we arrived in Belém, a welcoming city, we were informed by Varig’s agency that our itinerary to Los Angeles had been changed to go via Mexico City rather than directly through Miami. We paid a small difference and flew to Manaus in order to pay for the international flight. Without wanting to do any tourism—since our sole intention was to go to Pasadena and carry out our postgraduate studies there—circumstances beyond our control took us to Mexico’s great capital and on to the city of Tijuana, on the border with the southern United States. Unfortunately, our objective was not achieved because of the inefficiency of the Brazilian bureaucratic system, and we spent only a week in the beautiful city of San Diego, once the stage of duels between American “cowboys.”

“Man proposes and God disposes,” says the proverb, and that is how we remained in Mexico for some time instead of staying in California for two years, as had been planned.

When we landed at the airport, after passing briefly through Colombia, we went to the exchange counter to begin using the new currency. The endless quantity of heavy coins bothered us, and, not knowing quite how to use them, I offered a tip which was promptly refused by the baggage porter. My twenty-year-old son and I went to an airport restaurant, and on the way we saw a tribute paid to a Brazilian—Santos Dumont, the father of aviation—so that, together, we might undo the exchange based on the dollar and consequently buy back the poor cruzeiro. After all our mathematical efforts, we went to “lubricate” our dry throats—me with a few swallows of “tequilla,” and Archidy Filho with a beer, “al tiempo.” Later, speaking a bit of Spanish, we headed to the hotel on La Reforma. There, in Maria Cristina’s room, we watched a “base ball” game on TV without understanding a single thing. We then began to feel the strange sensation of being foreigners, which at first did not seem pleasant to us. Later we got used to it, and we soon drew a bit of attention by using our native language. We constantly went to the Brazilian embassy, where the symbol of our nation fluttered. We felt at home. They treated us in an extraordinarily affectionate way. They asked us to go there as many times as we wished. The kind Mexican doorman always greeted us with a pleasant smile. We saw young people of both sexes—students—seeking information about Brazil. Across the avenue there is a small restaurant specializing in Brazilian food, often frequented by embassy employees. It felt as if we were at the Bar do Pessista in Cruz das Armas. Even the waitress spoke a little Portuguese and offered us “Rabada à Brasileira” (Brazilian oxtail stew). There was only one thing missing: “the little white one” (cachaça), but “tequilla” did the job. One thing, however, we could not stand: not even the smell—those famous “tortillas.” At Dona Juanita’s bar, fortunately, there were none.

Still, my pilgrimage had to continue, as I explained before. I postponed my airplane trip to Los Angeles and traveled across all of northern Mexico, passing through places that vaguely reminded me of Brazil’s northeastern backlands; and, worried about reaching my destination, I did not memorize all those city names as far as Tijuana. I remember that in the roadside taverns, the typical Amerindian Mexican looked upon us kindly and called us “gringos,” perhaps confusing us with North Americans.

In San Diego I met Jim and Al, two good souls: the first, a former pilot from the Vietnam War, which he himself had hated; and the second, a prosperous businessman, who invited us to return to San Diego. After a small incident—since my son and I were separated for three days—at the urgent request of the Ministry of Education (MEC), we returned to the reinvigorating heat of the old Northeast, a region almost forgotten by the rest of the world.