A humanidade não mais suporta, hipócritas e inadmissíveis explicações, que pretendam justificar genocídios e massacres a populações civis indefesas, em nome de ideologias ou doutrinas sectárias e criminosas, como os que ocorrem no Oriente Médio ou em outras partes do mundo.
O curioso é que todos estes desmandos são realizados em nome da mais pura e edificante verdade. Os homens de consciência, os homens que não são chacais, os defensores da justiça e da liberdade, aqueles que se erguem em atitude de protesto contra o horror da injustiça, os mesmos que lamentam, e procuram honestamente evitar a repetição de tragédias como a de Hiroshima e Nagasaki, estes homens, entre os quais nos incluímos, não podem ficar indiferentes à carnificina perpetrada pelos milicianos cristãos, com o total apoio dos truculentos Ministros da Defesa e Primeiro Ministro de Israel no campo de refugiados de Chatila no Líbano. Quase um total de oitocentas mil pessoas, entre homens, mulheres e crianças indefesas.
Ariel Sharon não é tão diferente de um Adolfo Hitler, em suas invectivas contra a OLP, cujo diapasão era o mesmo em relação aos judeus. Como bem afirmou o presidente dos Estados Unidos, Davi se transformou em Golias. A vítima em algoz.
Os judeus de várias nações, inclusive de Israel, pediram uma comissão de inquérito, a qual foi imediatamente rejeitada por Begin. Isto equivaleria a uma confissão de culpa. Eles se apresentavam tão acintosamente inocentes que tiveram o desplante de afirmar, que graças à intervenção de seu governo, muitas vidas foram poupadas — há provas irrefutáveis de que eles não moveram uma palha sequer para evitar o hediondo derramamento de sangue, e que muito pelo contrário até iluminaram melhor a área onde ocorreria — como de fato aconteceu — a matança de velhos, mulheres estupradas e jovens mutilados até a morte.
Felizmente, para a honra dos israelitas, não foram poucos entre eles que se indignaram contra a criminosa ação dos líderes do governo de Tel-Aviv. Estes já não mais representam as altas aspirações democráticas de seu povo. A história do povo judeu tem um capítulo, que gostaríamos que fosse apócrifo. Porém Chatila é uma mancha irremovível.
Perguntamos afinal: quando, árabes e judeus, cristãos, muçulmanos, continuarão teimosa e cruelmente a não se render às evidências dos fatos; até quando seus fanatismos estúpidos contribuirão para o derramamento de sangue de seres humanos ou suas ambições paranóicas irão influir num embotamento da inteligência a tal ponto, que a neutralize, a torne estéril, improdutiva, ineficaz, diante de problemas de tão alta relevância e cujas soluções urgentes certamente iriam aproximar todas as nações, ricas e pobres, negras, brancas ou amarelas, num amálgama de respeito aos direitos do homem, seja qual for o seu credo político ou religioso, esteja onde estiver neste mundo, onde as esperanças parecem se tornar apenas um bocado de ilusões.