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A Descaracterização De Uma Cidade

Archidy Picado
João Pessoa ·

Transcription (Portuguese)

João Pessoa, ainda considerada uma das mais belas cidades do Nordeste, e que há algumas décadas atrás era de uma beleza incontestavelmente romântica, um lugar cuja urbanização propiciava um ritmo de vida humanizador, e na qual achava Gilberto Freyre ser ideal a uma centralização de toda a atividade intelectual universitária (quando o eminente sociólogo pensou em criar uma universidade geral para toda esta região do país), hoje, lamentavelmente está condenada a se tornar uma parafernália arquitetônica de proporções inimagináveis, graças aos projetistas comandados pela prefeitura.

A descaracterização de João Pessoa — cidade jardim — foi iniciada desde que se pretendeu modernizá-la, com a intenção muito mais voltada para os interesses financeiros — envolvendo a especulação imobiliária — do que para a continuidade de suas características originais. Foi então que se começou a destruir casas no estilo do mais puro “Art Nouveau” ou do “Jung Stil” neo-plasticista, para se construir o que o pintor Hermano José com muita propriedade chama de “moderno”; apesar de uma verdadeira batalha travada entre os que compõem o Patrimônio Histórico da Paraíba, com escassos recursos e quase sem nenhum apoio, a não ser nos decretos e leis, e a gigantesca engrenagem composta de medíocres arquitetos e maus administradores, subvencionados por empresários inescrupulosos. Eis aí o trágico panorama da urbanização de João Pessoa.

Recentemente, vimos com assombro o que andam fazendo bem no centro da cidade, na rua Duque de Caxias. Com postes em forma de ameba, e outros com bolas de pirulito nas extremidades de cruzes deitadas sobre esquálidas hastes de metal; a rua foi parcialmente interditada ao tráfego de automóveis, com exceção da parte de saída dos veículos que surgem inesperadamente dos fossos subterrâneos que existem no tradicional Ponto-de-Cem-Réis. Porém, o que mais torna o ambiente da rua lúgubre e mesmo fúnebre são os sepulcros ou simplesmente catacumbas construídas de forma absolutamente assimétrica, retangular, numa mistura desordenada, que certamente irão provocar alguns pequenos acidentes desagradáveis, tais como: alguma perna quebrada, alguns tombos, etc. Contudo, uma coisa é certa: nisto foram magníficos. Todo aquele cemitério servirá para aquelas almas penadas que transitam e permanecem ali, porque nada mais podem fazer.

Nos seus bate-papos intermináveis e estéreis, apresentam soluções as quais se perdem por ali mesmo. Me explicaram que os tais tanques no meio da rua eram canteiros onde flores haveriam de crescer e emprestar o seu colorido ao lugar. Deus queira que não os transformem em sanitários públicos, porque foi o que já aconteceu com a lagoa de seu Hermano Almeida.

Não podemos nos omitir diante de tanta insensatez. É preciso limpar a cidade da sujeira que anda por toda parte, respeitar os nossos monumentos artísticos, porque é através da arquitetura e da arte que se conhecem as grandes civilizações.

Translation (English)

The Decharacterization of a City

João Pessoa, still regarded as one of the most beautiful cities in the Northeast—and which, a few decades ago, possessed an unquestionably romantic beauty, a place whose urban fabric fostered a more humane pace of life, and which Gilberto Freyre considered ideal for the centralization of all university intellectual activity (when that eminent sociologist thought of creating a general university for this entire region of the country)—today, sadly, is condemned to become an architectural jumble of unimaginable proportions, thanks to the designers directed by the city government.

The loss of João Pessoa’s identity—this “garden city”—began when it was decided to modernize it, with an intention far more geared toward financial interests—involving real-estate speculation—than toward preserving its original characteristics. That is when houses in the purest “Art Nouveau” style, or in the neo-plastic “Jung Stil,” began to be destroyed, in order to build what the painter Hermano José quite aptly calls “modern”; despite a genuine battle waged by those who make up Paraíba’s Historic Heritage, with scarce resources and almost no support other than decrees and laws, against a gigantic machine made up of mediocre architects and poor administrators, subsidized by unscrupulous businessmen. Such is the tragic panorama of João Pessoa’s urbanization.

Recently, we watched with astonishment what they have been doing right in the city center, on Duque de Caxias Street. With lampposts shaped like amoebas, and others topped with lollipop balls at the ends of sideways crosses on scrawny metal shafts; the street was partially closed to car traffic, except for the exit lane for vehicles that unexpectedly emerge from the underground pits that exist at the traditional Ponto-de-Cem-Réis. However, what most makes the street’s atmosphere gloomy—even funereal—are the tombs, or simply the catacombs, built in an absolutely asymmetrical, rectangular fashion, in a disordered mix that will certainly cause a few unpleasant minor accidents, such as a broken leg, a few falls, etc. Still, one thing is certain: in this, they were magnificent. That entire cemetery will serve those restless souls who pass through and remain there, because there is nothing else they can do.

In their endless and sterile chatter, they present solutions that are lost right there on the spot. They explained to me that those “tanks” in the middle of the street were flower beds where flowers were supposed to grow and lend their color to the place. God forbid they turn them into public toilets, because that is what has already happened to Seu Hermano Almeida’s lagoon.

We cannot omit ourselves in the face of such senselessness. The city must be cleaned of the filth that is everywhere, and our artistic monuments must be respected, because it is through architecture and art that great civilizations are known.