A história tem demonstrado que, exceto na época do mecenato, os artistas costumavam sofrer a incompreensão e a mais absoluta rejeição dos seus contemporâneos. Na célebre Semana de Arte Moderna de 1922, Villa-Lobos recebia vaias de um público reacionário e conservador para, felizmente ainda em vida, ser considerado como um dos maiores compositores do século, superando a glória de um Carlos Gomes, extraordinário músico do Segundo Império.
Escritores e sobretudo pintores também passaram por grandes dificuldades, até mesmo de sobrevivência, como ocorreu com os artistas franceses do fim do século passado. Por conseguinte, parece-nos que a arte possui algo de profético, isto é, de uma mensagem estética que frequentemente só com o tempo será captada pelo público.
Imperdoável, contudo, é o ostracismo a que foram lançados, tanto em sua época como hoje em dia, compositores e regentes do mais alto gabarito, que, nascidos aqui no Nordeste, foram total ou parcialmente esquecidos ou subestimados, como Francisco Picado (o verdadeiro fundador da Orquestra Sinfônica da Paraíba) e o internacionalmente consagrado compositor e regente José Siqueira.
É revoltante constatar como na nossa Paraíba (especialmente em João Pessoa) se dá mais valor à prata de fora, em detrimento dos grandes mestres locais. Quem ousaria ignorar o raro e extraordinário talento de um Siqueira, que somente na velhice obteve o convite para dirigir alguns concertos nesta cidade, graças à admiração pela música erudita que tem o ex-governador Tarcísio Burity?
Porém, o músico esquecido foi o maestro Francisco Picado, o qual dedicou quase toda a sua vida à sua arte, ao criar uma orquestra sinfônica (realização que mesmo um Gazi de Sá achava impossível) e um conservatório.
Maestro Picado dedicou-se à difusão da música erudita através de concertos (como o do Teatro Santa Roza em 29 de maio de 1946), com a colaboração e participação de cinquenta figuras, alguns formados pelo próprio maestro, sem auferir qualquer remuneração, unicamente conduzido pelo ideal de espalhar, até pelas plagas do árido sertão, a maravilhosa e sublime arte da música.
Não resta dúvidas que se tratava de uma aventura, naqueles tempos difíceis de uma pós-guerra (que tantos abalos trouxe ao mundo), sem qualquer apoio do governo ou de qualquer entidade, salvo a da Sociedade de Cultura Musical, fundada por um grupo de idealistas.
Um certo articulista escrevera que nunca a Paraíba demonstrou tanto gosto pela Arte e pela Poesia.
Em seu programa de estreia, havia o prelúdio do 1º ato de “La Traviata”, de Verdi, Tchaikowsky, Beethoven, a valsa da ópera “A Boêmia”, Schubert, além da inclusão de um compositor conterrâneo, Joaquim Pereira (por onde andará este outro “grande injustiçado”?)
Não, tudo isto caiu no mais absoluto esquecimento. Atualmente só se fala em maestros europeus ou de “showman”, como o inegavelmente genial maestro Karabichewisky (não o teria escrito errado?), mas nunca ou quase nunca dos modestos, contudo não menos valiosos talentos, que com certeza existem envolvidos pelo manto de um esquecimento mesquinho e proposital.
Dizem que os grandes homens não morrem nunca porque permanecem na memória da cultura e das civilizações. Não estaremos, na melhor das hipóteses, sofrendo de uma amnésia possivelmente curável?