Comemora-se este ano o sesquicentenário do nascimento do emérito pintor acadêmico brasileiro, Victor Meireles. Nascido em Santa Catarina, o jovem e talentoso artista dirigiu-se para o Rio de Janeiro, com apenas quinze anos, para realizar seus estudos de Belas Artes na Academia — daí a origem da palavra “acadêmico” para designar um tipo de arte moldada nos arquétipos clássicos greco-romanos. A orientação era portanto acadêmica ou neo-clássica e aí Victor Meireles aprendeu as primeiras letras da arte com Correia Lima. Embora a Europa estivesse atingida pelas insurreições estéticas, o Brasil continuava fiel às tradições da Missão Francesa. Obteve o prêmio de viagem ao exterior e lá frequentou cursos na França e na Itália. Estudou com Castelde e executou um belo quadro cujo título era “Um Sátiro e uma Bacante”, além de exercitar-se tecnicamente através de cópias de autores célebres, como se costumava fazer na época. O seu mais conhecido trabalho é o quadro “A Primeira Missa no Brasil” que se encontra atualmente no Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro. Após ter passado oito anos na Europa, retorna ao Brasil para assumir a cadeira de pintura na Academia Imperial de Belas Artes. Há um outro quadro, não menos famoso, do artista catarinense, Moema, baseado no poema “Caramuru” de Santa Rita Durão. A figura da índia é um tanto estereotipada, sofisticada, parecendo mais uma ninfa mitológica do que propriamente uma de nossas nativas. Porém o realismo tinha de ser elevado a um nível idealista para que permanecesse de acordo com os cânones do classicismo.
Após a guerra do Paraguai, foi encomendado a Victor Meireles a execução de telas que retratassem de maneira heróica e patriótica, a vitória do Brasil sobre o inimigo. Meireles pintou então “A Passagem do Humaitá” e “A Batalha do Riachuelo”. Por essas obras de arte, o artista recebeu a quantia de dezesseis contos de réis. Entretanto, suas cenas de batalha não possuíam o brilho e a expressividade do paraibano Pedro Américo, cuja “A Batalha do Avahy” conseguiu ultrapassá-lo neste gênero de arte, se afastando um pouco do rigor acadêmico de Ingres e Louis David.
P. M. Bardi refere-se em sua magnífica História da Arte Brasileira às restrições feitas por muitos que o acusavam de não retratar a realidade fidedignamente, com absoluta honestidade, no que concerne à vestimenta e à semelhança dos personagens. Achavam-no medíocre ao vestir André Vidal de Negreiros como os cavalheiros de Borguinhão. Injusta acusação, pois o pintor não podia dispor de modelos os quais correspondessem à época a ser ilustrada. Afinal, o que importava, senão esmerado desenho e discreta sobriedade no uso das cores, ao invés de simples aspectos anedóticos ou mesmo históricos dos temas tratados artisticamente. A arte de Meireles não era literária e sim plástica. Outros, como Debret, se limitaram a transpor para os seus desenhos uma realidade social de densa originalidade, ao descrever os nossos costumes e paisagens.
Estamos certos de que o extraordinário artista que foi Victor Meireles de Lima, se tivesse vivido alguns anos além do ano de 1903 — data de sua morte — teria se libertado dos grilhões do academicismo e produzido uma pintura mais avançada e livre, como a do seu discípulo que se tornaria célebre, Rodolfo Amoedo.