Gabriel García Márquez é o quarto latino-americano a receber o tão cobiçado prêmio Nobel de literatura. A Academia Sueca reconheceu-lhe os extraordinários méritos de revelar-nos a vida e os conflitos de um continente, o qual, para os nórdicos, deve parecer extremamente exótico. Seu mais popular romance, “Cem Anos de Solidão”, é uma verdadeira saga, que recorda, não somente o estilo vigoroso e espontâneo, como também a construção mito-literária de William Faulkner — influência reconhecida pelo próprio autor colombiano. O realismo e a fantasia se amalgamam. Entretanto o conteúdo político do qual nunca se afastou, aparece com hábil sutileza. “Gabo” conseguiu passar a perna em escritores de seu nível, como o argentino Jorge Luis Borges e o nosso prolífico contador de estórias, narrador de uma realidade afro-brasileira bem típica do nosso país, Jorge Amado. A fatalidade é outro elemento fundamental encontrado sobretudo na “Crônica de uma Morte Anunciada” do autor laureado. Apesar deste destino cruel a que estão subjugados os seus personagens, o humor, em seus livros, é um sinal de esperança. A preocupação de muitos dos escritores latino-americanos pelos pobres e miseráveis, ou seja, pelos problemas sociais gravíssimos que nos afligem e que causam horror aos povos mais desenvolvidos, tem contribuído para que o resto do mundo dirija a sua atenção para esta vasta área de injustiça e desmandos.
Quase que praticamente exilado no México, Gabriel García Márquez pretende agora, com a democratização do país por Belisário Betancur, regressar à sua pátria. Considera-se mais preponderantemente um jornalista, por esta ser uma atividade mais ligada ao povo.
A solidão, tanto do ditador, “O Outono do Patriarca”, como a solidão da beleza, em “Eva Mora dentro do Seu Gato” — ainda não traduzido para o português —, ou mesmo em “Cem Anos de Solidão”, no qual o acontecimento da morte é a grande solidão de todas.
Certa vez, uma jornalista perguntou-lhe com quem, entre os seus personagens, ele mais se identificava; “Com a prostituta”, respondeu incontinenti, “ela proporciona alegria a muitos em tempo recorde”.
Casado há vinte e cinco anos, a família Márquez vive em completa harmonia e é sua esposa quem se queixa de, apesar deste recorde, não ter merecido o Prêmio Nobel.
O realismo socialista a que se refere o próprio García Márquez em referência à sua obra literária, tem seu fundamento. Por trás daqueles relatos aparentemente simples, realistas, às vezes vulgares, outras vezes mágicos, percebe-se a principal intenção do autor, isto é, a transformação desta mesma realidade social em algo mais humano e civilizado, mais digno da condição humana.
A solidão, por conseguinte, o destino trágico e aparentemente insolúvel, ocorre por falta de nosso espírito de verdadeira solidariedade, por egoísmo, cegueira diante dos problemas alheios, indiferença frente a acontecimentos com os quais já nos acostumamos a aceitar estoicamente. Eis a cômica e ridícula atitude nossa, inteiramente passiva, dobrada a uma fatalidade inevitável. Assim vivem os habitantes deste subcontinente, deste terceiro mundo, ora a rogar a Deus que solucione os nossos problemas sócio-econômicos, ora a solicitar ajuda financeira às nações mais ricas que nos humilham constantemente e não nos levam a sério. Palavras de De Gaulle: “O Brasil não é um país sério”. O que dizem do resto da América Latina? E assim temem as ditaduras militares como a de Galtieri, sobre a qual não conseguiram controlá-la. Desconfiam que o Brasil siga o exemplo da Argentina e portanto oferecem vantagens duvidosas e um passeio pelo ônibus espacial. Eis aí o que pensam de nós e também aí reside a razão de ser da literatura do eminente e talentoso detentor do Prêmio Nobel de Literatura de 1982, Gabriel García Márquez.