Sabemos que o homem sempre temeu a morte. Não somente por uma reação natural do instinto de conservação, mas por uma tomada de consciência de que vai morrer. A maioria vive, contudo, como se este acontecimento normalmente indesejável nunca lhe ocorresse. Em parte, esta atitude diante da morte é absolutamente natural. Epicuro afirmou certa vez que a morte era uma experiência impossível de ser vivenciada. Portanto, não poderíamos viver a morte, pela simples razão desta ser a antítese da vida. Dizia o célebre filósofo grego: “Eu sou, por conseguinte a morte não é.” Todavia, embora a morte inexista, de um ponto de vista estritamente axiológico, ela é, sob um ângulo de posição ontológica.
Mas o homem se recusa a encará-la de frente. Não nos habituamos com a ideia de que um dia haveremos de deixar este mundo para sempre. O instinto de conservação nos seres vivos é incontestável. Almejamos a todo custo a perpetuação. Por conta disto, já construímos mastabas, pirâmides, templos, museus e monumentos. Cultuamos as cinzas dos nossos antepassados. Assim tem sido o combate do homem com a morte ao longo dos séculos.
Entre as religiões dos homens há o Zen-Budismo, praticado em países do Oriente, como o Japão, Coreia, Nepal, Mongólia, Sibéria etc., cuja ascese não precisa de uma crença num paraíso para que possa ser exercida. Sua filosofia de vida é objetiva, realista e espiritualmente densa. Sem dúvida entenderíamos melhor seus valores éticos se meditássemos acerca da Epístola aos Coríntios escrita por Paulo, que diz, entre outras coisas, o seguinte: “E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria. O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se enche de soberba. Não se importa com indecência, não busca seus interesses, não se irrita, não suspeita mal.”
O verdadeiro budista compartilha das dores e das alegrias dos seus semelhantes. Não existem grandes diferenças entre o eu e o tu. Porém este é o pensamento do misticismo oriental. Cremos mesmo residir aí a autêntica metafísica. Trata-se de um comportamento religioso que não se fundamenta na revelação, mas na experiência humana. A meditação sobre a morte é considerada uma atividade indispensável ao aprimoramento moral do homem.
Na Roma antiga, quando o general vitorioso seguia em cortejo, aclamado pelo seu povo, em direção ao palácio, havia sempre alguém que sussurrava em seus ouvidos: “Lembre-se que és um simples mortal.”
Finalmente, o sábio Buda ensinava apenas duas coisas: o sofrimento (ou a dor) e a libertação deste sentimento. Para os monges budistas somente a subjetividade do ser, sua essência, o que há de mais profundo em sua consciência, é o que verdadeiramente importa, pois tudo mais é ilusão provocada pelo desejo, raiz de todo o mal.
Encarada desta maneira, a morte perderia o seu horror e passaria a simbolizar um momento de reflexão sobre nós mesmos e os outros.